Collabo

Setor: Tecnologia (trabalho universitário)
Desafio: Criar um sistema que auxilie na inclusão de pessoas autistas no mercado de trabalho
Meu papel: UX/UI Designer – UX Researcher
Data: Ago 2022 – Dez 2023

Falar sobre pessoas reais com problemas reais

Em 2022, quando eu e meu grupo de TCC discutimos as possibilidades de pesquisa para fazermos para o nosso projeto final, ficou claro que todos nós queríamos ir além de fazer um produto de design gráfico. O nosso objetivo era fazer algo para a sociedade, perceber seus movimentos, as dinâmicas que nos cercam e contribuir pra um futuro mais humano, em que o bem-estar esteja em primeiro lugar

Contexto

Percebendo que nosso propósito enquanto designers e do nosso projeto era falar sobre pessoas reais com problemas reais, ficamos interessados em colaborar com um grupo minoritário, para que juntos conseguíssemos construir algo que ajudasse a transformar as suas realidades, de forma que isso se refletissem em um novo e melhor futuro.

A partir disso, decidimos trabalhar com o público autista adulto. Isso se deu porque, na hierarquia social, se trata de um grupo que historicamente foi colocado em posições inferiores, o que se refletiu na carência de pesquisa e estudos sobre o autismo, considerando principalmente os adultos autistas.

Queríamos então achar essas pessoas, olhar para elas, dar atenção e ajudar elas a conquistarem seus espaços.

Integrantes: Ana Clara Marques, Carlos Toste, Carolina Abranches, Julia Gandolpho e Mariana Daniel.

Problema

85% dos adultos autistas não estão inseridos no mercado de trabalho, e, mesmo aqueles que encontram um emprego, frequentemente se encontram numa situação de subemprego onde as suas necessidades básicas nem sempre são supridas

Ao longo das nossas entrevistas, conhecemos pessoas demitidas devido à falta desse encaixe na cultura da empresa ou que optaram por ser demitir devido ao capacitismo e à estigmatização dos seus comportamentos. 

Sem a inclusão, a inserção se torna uma solução temporária que é incapaz de criar ambientes de trabalho sustentáveis e acolhedores. E foi por isso que a gente decidiu abordar esse tema.

Solução

Decidimos então criar a Collabo, uma plataforma online de comunicação e gestão de tarefas, construída para valorizar e atender as necessidades das pessoas com TEA e das empresas, sendo um instrumento de inclusão nos ambientes de trabalho.

A Collabo viabiliza a comunicação assertiva e eficiente entre funcionários de diferentes partes de uma empresa, a partir da centralização e integração de diferentes funcionalidades.

Além disso, a Collabo também estimula a diversidade nos espaços de trabalho, tendo em vista que colabora para estabelecer um ambiente mais receptivo a características diversas. Com isso, é possível não só garantir o crescimento profissional dos funcionários, como também favorecer a inovação empresarial.

Meu papel

Esse foi um projeto colaborativo entre cinco estudantes. Embora todos tenham participado de todas as etapas, minhas contribuições principais foram:

Pesquisa e análise

Fizemos diversos tipos de pesquisa e análise, como pesquisa exploratória (desk research), benchmark de empresas inclusivas, pesquisas teóricas sobre autistas adultos, pesquisas quantitativas e formulários, análises desses resultados e análise de viabilidade do projeto.

Entrevistas

Entrevistamos primeiro grupos de suporte dos núcleos familiar (parentes) e empresarial (diretores e especialistas de recursos humanos) e depois autistas adultos. Buscamos tanto pessoas empregadas quanto pessoas com dificuldade no mercado a fim de compreender melhor a situação.

Desenvolvimento do sistema

Para criar esse sistema, foi necessário uma análise de benchmark de tecnologias similares, definição de funcionalidades, criar o fluxo do usuário, o mapa do site e os wireframes.

Criação da interface

Com base na identidade de marca desenvolvida, desenvolvemos um style guide considerando as normas da WCAG 2.1. Buscamos criar uma plataforma que fosse acessível, fluida e visualmente atraente.

O projeto

Nossas pesquisas

Além das pesquisas de benchmark e mercado, coletamos dados por meio de formulários e entrevistas. Com isso buscamos compreender suas experiências e necessidades relacionadas ao ambiente de trabalho para que a partir dos resultados pudéssemos desenvolver nossa solução. Abaixo estão alguns highlights dessas pesquisas:

Não estou mais trabalhando justamente porque no meu local anterior de trabalho não tinha adaptações para mim. Os meus colegas de trabalho faziam comentários inconvenientes sobre autismo, reclamavam de meus protetores e da forma que me comunico.
Resposta do formulário

Não consigo me comunicar com as pessoas num geral, sinto que estou sendo julgada a todo tempo.
Resposta do formulário

Eu fiquei mais seis meses lá tentando segurar, porque, assim, é uma empresa muito grande, eu queria crescer nela. Mas a partir desse momento eu percebi que as portas foram fechadas para mim totalmente. Depois que eu contei do diagnóstico. E eu nunca ia poder me candidatar a nenhuma outra vaga porque eles começaram a me tratar com bastante capacitismo mesmo. E coisas criminosas, assim, de falar a palavra com 'r'. E então é, eu cheguei a um ponto que eu peguei um atestado de burnout e não voltei de demissão.
(R, pessoa entrevistada)

Conheça os usuários

Com base nos dados coletados e analisados durante a fase de pesquisa, desenvolvemos três personas representativas dos principais perfis de usuários que o sistema pretende atender: os profissionais de RH, os administradores e gestores e os autistas. Elas serviram para guiar as decisões de design, garantindo uma abordagem inclusiva e personalizada que busca atender às necessidades distintas de cada grupo dentro das organizações.

estruturando o fluxo

O fluxo do usuário foi mapeado para garantir uma experiência clara, acessível e intuitiva para os usuários autistas. Para isso consideramos alguns possíveis cenários de uso, mas focamos na rotina do Lucca (funcionário autista) como o fluxo principal. Buscamos implementar em cada etapa do fluxo soluções simples e personalizadas para tornar o uso da plataforma mais inclusivo.

O mapeamento detalhado do fluxo do usuário serviu como base para as decisões de design, garantindo uma jornada de usuário que prioriza a acessibilidade, a previsibilidade e a facilidade de uso para todos os perfis de personas identificados.

testando nossas ideias

Os wireframes desempenharam um papel crucial na definição da estrutura e organização do nosso sistema. Eles ofereceram uma representação visual simplificada das diferentes telas e elementos de interface, permitindo uma avaliação rápida e fácil da funcionalidade e usabilidade do sistema. Cada wireframe foi cuidadosamente elaborado com base nas necessidades e preferências identificadas durante a fase de pesquisa, garantindo que as soluções propostas atendam aos requisitos dos usuários autistas. Sendo assim, os wireframes foram importantes para o grupo ao longo do processo nos seguintes estágios: planejamento, iteração, colaboração e validação. Com base nesses testes foi estruturado o wireframe de nove telas da plataforma.

Desenvolvendo uma história visual

O Style Guide foi meticulosamente desenvolvido com o compromisso de cumprir as normas de acessibilidade da WCAG 2.1, garantindo uma experiência inclusiva para todos os usuários, incluindo aqueles com necessidades especiais. Todas as cores foram selecionadas com base em testes de contraste para garantir uma legibilidade fácil e clara. Além disso, foram realizados testes de daltonismo para garantir que os usuários com diferentes tipos de daltonismo possam distinguir facilmente entre diferentes elementos. A iconografia foi escolhida e projetada com cuidado para garantir acessibilidade e compreensão universal. Vale ressaltar que o Style Guide foi desenvolvido em linha com a identidade visual previamente estabelecida no projeto, mantendo a consistência e coesão em toda a interface do sistema. Clique aqui para conhecer melhor o desenvolvimento da identidade da marca criada.

resultado

Unindo os insights vindos dos wireframes desenvolvidos e a estrutura do Style Guide estruturado, este capítulo apresenta o layout final, concebido e refinado para os usuários terem uma experiência coesa, funcional e inclusiva. Cada elemento visual, interativo e funcional do layout reflete as decisões de design fundamentadas nos conhecimentos e aprendizados acumulados ao longo da pesquisa.